Camperiada

 

Que queres comigo?...

Homem querido. Se és um tropeiro de invernadas infinitas...

E, se hoje, as farpas dos arramados já não te impedem de avançares coxilhas outras...

Te rogo:

- Encurta a rédea deste teu querer. Fasta teu desejo, do meu desejo recolhido.

Quando teu olhar manso, me abraça, perco o rumo. Sinto-me despida do luto que emponcha minha alma.

Tuas madrugadas foram tantas. Entre “enleio”, mateadas e pealos, apresilhastes em teu saber, a astúcia em prever: - o estouro da tropa, o cio da vaquilhona, a balda de um redomão. Até mesmo, o querer oculto, de uma chinoca aragana.

Não é nossa culpa, se os janeiros entre nós, provocaram desencontros, te obrigando agarrar a estrada, algumas léguas antes. A ouvir o clarim do tempo, que acorda os bravos. Onde nestas tuas alvoradas tantas, recebestes como benção, a chuva guasqueada em teu rosto.

E, sobre o lombo de teu cavalo saudaste o sol, a emergir da cerração, te dando “ô de casa”. Sol, poeira, chuva e geada, intemperes que te fizeram mais homem.

Reconheço com tristeza, que as luas que se passaram; Entre a Minguante e a Cheia, não estivemos juntos. Não assistimos com a devida emoção, a florada da paineira. Não contemplamos os rebanhos pastando por entre malmi-queres, e minúsculas flores de matizes indescritível.

Hoje, já não me fascina a paleteada. Assusta-me a vitória. Dispenso o lugar de honra, em meio aos teus pertences. Meu querer-te, não sonha... repousar entre medalhas e troféus, animais empalhados, peles raras. Nem mesmo, acolherar-me as galharias daquele arisco cervo, onde na precisão da mira: tu, o abateste.

Vendo meu caminhar sem pressa, percebo que trazes na garupa, excesso de lembranças. Das quais, não fiz parte...

Quis o Patrão, que não saboreasse-mos da mesma pastagem, que não dividíssimos o mesmo cocho de sal. Assim sendo:

- Resta-me o lugar, da minúscula pedra da boleadeira. Potente sim, no manear das patas. Mas, distante para afagar-te o rosto. Beijar com carinho tuas dores. E embretar-te num abraço solidário, a fim de amenizares a saudade que devotas para única prenda que amastes. Teu grande amor, que habita outro espaço na querência do sem fim...

Portanto, homem querido, não atropelemos os cavalos nos tocos. Prossiga, segue... assim num trancosito, sem despertar-me os quero-queros. Pois, há muito, já me apartei da manada.

Apenas, aguardo o arremate desta camperiada, no último rodeio, lá no Campo Santo. Sei que recostado a um pelego, sob a sombra de um soita-cavalo, espera por mim, o único homem que amei. Que também me amou acima de tudo, e... de todos. Para que, eu e ele, continuemos aquela prosa, que o pranto interrompeu...

E a morte: nos dispersou.

 

Barra do Ribeiro, 24 de janeiro de 1999.

Elâne Terezinha Ribeiro Pereira


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